Saudades, democracia!
Leandro
Freitas Colturato
Foi durante a gestão de Clístenes como legislador em Atenas que uma série de reformas foi realizada em 514 a.C. As reformas de Clístenes são consideradas como as responsáveis pelo nascimento da democracia enquanto sistema que amplia a participação popular dentro da política. Democracia é o regime político em que a soberania é exercida pelo povo. Os cidadãos são os detentores do poder e confiam parte desse poder ao Estado para que possa organizar a sociedade.
Somente a democracia nos garante e concretiza o bem comum, os direitos humanos, os deveres, a vida segura para todos, o bem estar, igualdade de tratamento, liberdade de expressão, de ação, de culto e de escolha do próprio estado de vida, de participação na vida política.
O sanitarista Sergio Arouca, quando em seu discurso de abertura na 8 Conferência Nacional de Saúde, realizada em 1986, trouxe a expressão: “Saúde é democracia”. Ele jamais imaginou que, após 36 anos, estaríamos vivenciando tamanhas barbáries contra a saúde como nos últimos anos. Naquele momento, em pleno processo de redemocratização do Brasil, discutia-se um novo paradigma do conceito ampliado de saúde, que se materializava, apesar de todas as resistências políticas e econômicas, na criação do Sistema Único de Saúde (SUS).
Arouca explicou essa mudança de paradigma afirmando que saúde não é simplesmente ausência de doença: “é um bem-estar social que pode significar que as pessoas tenham mais alguma coisa do que simplesmente não estar doentes; que tenham direito à casa, ao trabalho, ao salário condigno, à água, à vestimenta, à educação; direito a um sistema político que respeite a livre opinião, a livre possibilidade de organização e autodeterminação de um povo e que não esteja todo tempo submetido ao medo da violência de um governo contra o seu próprio povo”.
Essa definição de saúde está diretamente relacionada ao conceito de democracia, não sendo possível melhorar a saúde das pessoas se não melhorar em paralelo a qualidade geral de vida, o que, por sua vez, também não é possível enquanto persistir um modelo político autoritário. Do mesmo modo que um processo democrático foi fundamental para implantar o SUS, a resistência a partir do movimento sanitário que lhe deu base e sustentabilidade se faz mais necessária, em defesa da democracia em nosso país.
Da mesma forma, não há democracia se a liberdade e o respeito aos profissionais de saúde não forem soberanos. A intolerância política somada ao extremismo sociocultural que vivenciamos jamais apagará o brilhantismo dos grandes responsáveis por sairmos da pior crise sanitária dos últimos tempos. Independentemente do lado político do médico. Ele tem por obrigação mirar a saúde do ser humano, em benefício da qual deverá agir com o máximo de zelo e o melhor de sua capacidade profissional.
Inaceitável lermos em silêncio os absurdos que o fanatismo faz. Compreender e aceitar atos antidemocráticos não é permitido para um ser humano do bem. A capacidade técnica e intelectual de cada médico deve ser respeitada muito além da sua opinião política. Se o médico sofre, a saúde sofre.
A Associação Paulista de Medicina – Regional de São José do Rio Preto tem como um dos seus maiores pilares a defesa da classe médica. Manifestamos a solidariedade aos colegas médicos e médicas que têm sido citados em listas como alvos a sofrerem boicotes, após resultados das eleições. Ressaltamos o que acreditamos a sociedade reconhecer: o papel fundamental da medicina rio-pretense na vanguarda do conhecimento científico, sendo um dos alicerces da economia de nossa cidade e região, justamente por sua pluralidade e interdisciplinaridade, condições antagônicas à segregação e à retaliação manifestadas nas supostas listas. Em momento de ânimos acirrados, repudiamos veementemente qualquer tipo de discriminação, reiterando os valores democráticos de nossa sociedade, o livre debate de ideias e correntes políticas, desejando que os novos governantes tenham sucesso nas diferentes esferas do poder. O que nos cabe é cobrar dos nossos governantes a democracia.
Leandro Freitas Colturato é presidente da Associação Paulista
de Medicina – Regional de São José do Rio Preto.

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