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Homenagem aos ex-presidentes - Dr. Horácio José Ramalho - 44ª Diretoria (1990/1991)

Da sua época de presidente da SMC, das suas experiências, o que mais te ajudou depois na sua trajetória?

Dr. Horácio – Presidir a SMC comprova na prática que gestão só é possível com uma equipe motivada, múltipla e que os resultados só acontecem se tivermos objetivos bem definidos. As lideranças precisam ter rigor do orçamento e buscar recursos adicionais, deixando sempre o imobilismo, e, principalmente, conduzir a gestão com total transparência e irrestrito respeito pelos dados da instituição.

O senhor lembra algum feito marcante da sua gestão e que ainda hoje quando olha vê marcas do possível legado que deixou?

Dr. Horácio – A nossa gestão foi marcada por acontecer durante período de grandes transformações econômicas e sociais no país, que claramente tiveram impacto sobre todas as associações, sobretudo nas médicas. Previsto na Constituição Federal de 1988, o SUS foi implantado pela lei 8.080, de 1990, abrindo uma enorme discussão sobre a sua abrangência, novas denominações, absorção de médicos que estavam em várias carreiras prévias e trouxe a certeza de que o país iria contar com um sistema de saúde ímpar pela grande abrangência e por tudo que propunha: ser totalmente grátis, hierarquizado e com os papéis dos atores federal, estaduais e municipais muito bem definidos. Foi, contudo, um período também de muita incerteza para os médicos que trabalhavam no serviço público viveram período de incerteza: como seria absorvido, se ficaria no mesmo local, se salário seria diferente etc.

Neste momento, a SMC realizou diversas reuniões para apresentar aos gestores locais estas várias demandas e dúvidas dos médicos. Aos poucos, foram sendo esclarecidas com a publicação de várias portarias complementares à lei.

Vivemos também a primeira eleição direta para presidente, com o país inteiramente polarizado. Como não havia as redes sociais, portanto, as discussões ocorriam somente quando estivessem juntas três ou mais pessoas. Neste contexto, a SMC desempenhou importante papel de trazer para dentro da entidade a discussão, abrindo suas portas para ouvir as várias tendências, em particular, sobre a área da saúde.

Importante destacar que, durante a nossa gestão, houve a anexação do último terreno comprado com enorme dificuldade, onde hoje estão os grandes quiosques, ao lado do bar/restaurante. Houve também a informatização da secretaria.

No campo da defesa profissional, enfrentamos uma campanha difamatória bastante agressiva contra os oftalmologistas, que atingia a classe médica como um todo. Outdoors e anúncios em jornais abordavam a indicação de óculos. A SMC ingressou no CONAR – Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, conseguindo que todos os outdoors foram retirados, assim como os anúncios do jornal. Foi uma atuação inédita, fruto do associativismo, e feita de uma maneira elegante, mais muito efetiva.

Destacar também o projeto de arborização do Clube dos Médicos desenvolvido pela dona Adelaide Kauam Medina e em que foram plantadas mais de 500 espécies, transformando nossa sede num oásis e exemplo de preocupação com o meio ambiente, décadas antes desta ser preocupação de empresas e instituições, hoje ganhando corpo com o ESG, a governança ambiental, social e corporativa.

A medicina se transforma no dia a dia. Em termos de associativismo, o que o senhor enxerga de diferente agora e quais suas perspectivas no futuro?

Dr. Horácio – Mudaram completamente a formação do médico e o seu relacionamento com o paciente e a sociedade como um todo. O advento da internet e, posteriormente, das mídias e redes sociais tornou o fluxo da informação imediato e a comunicação instantânea, fazendo com qualquer evento ou conhecimento fosse acessível a qualquer pessoa. Esta realidade causou certo desconforto para nós, médicos, sendo as entidades, inclusive, procuradas ou instadas a se posicionar num segundo momento. Mas acredito que o cenário atual não faça com que os jovens profissionais desacreditem do associativismo. Gradativamente, eles voltarão a participar das entidades. 

O que o senhor gostaria de ver na nossa SMC e que ainda não foi realizado? Alguma sugestão para as futuras diretorias?

Dr. Horácio – A atual diretoria é jovem, renovada, extremamente atuante e tem uma visibilidade enorme na mídia, através de artigos sobre vários assuntos. Não foge de opinar sobre tudo o que acontece e que atinge a medicina como um todo. É atuante, promovendo vários investimentos no Clube dos Médicos e realizando eventos científicos de alto nível, atraindo os estudantes de medicina e jovens profissionais. Vejo que há um novo modelo de relacionamento entre as pessoas, mas o médico sempre terá papel preponderante na sociedade e nossas entidades conseguirão proporcionar a nós os benefícios das áreas científica e de lazer, mas também uma defesa de classe segura e presente em todos os momentos de sua carreira para que ele nunca se sinta vulnerável.

Qual sua avaliação da atuação da classe médica e suas entidades representativas para a melhoria da saúde pública e suplementar no Brasil? Há algo mais que possa ser feito?

Dr. Horácio – A Sociedade de Medicina e as demais entidades de nossa classe são interlocutoras qualificadas na discussão das questões da saúde no país e de seu futuro. Os diretores que conduzem nossas entidades têm ciência desta nossa responsabilidade e, sempre que consideram pertinente e necessário, posicionam-se perante as diversas esferas de poder, o SUS e as empresas de saúde suplementar e suas entidades. É o que tem feito sempre a nossa Sociedade de Medicina porque seus diretores sabem que nossa entidade está lastreada pela representatividade do médico, mas que também tem responsabilidade na defesa dos interesses dos usuários dos sistemas público e privado de saúde.