Sob a égide da evolução
Dr. Rafael A. Barbosa Delsin
A história da Medicina está ligada às primeiras civilizações – o primeiro documento sobre a atuação de um médico surge com a formação de sociedades organizadas. Trata-se de uma disciplina com importantes contribuições para lidar com os desafios atuais. A partir dela, entendemos os princípios, métodos e ideais que orientavam os tratamentos em diferentes épocas, formando um aprendizado contínuo e buscando inspiração para soluções adequadas.
Com a pandemia por Covid-19, o presente da Medicina se tornou bastante desafiador, e o conhecimento acumulado ao longo de séculos é uma das ferramentas para enfrentar os desafios mais recentes.
É comum atribuir à medicina egípcia o título de mais antiga do mundo. Neste sentido, o primeiro médico da História seria Imhotep, 2500 antes de Hipócrates, que deixou um tratado com 48 casos organizados em secções no papiro de Edwin-Smith (que leva o nome do arqueólogo que o descobriu). Outro fato relevante é que a atuação do médico já era regulamentada no primeiro Código de leis que se tem registro. A legislação criada pelo Rei Hamurabi (entre 1792 a.C. e 1750 a.C.) previa obrigações assim como responsabilidade em caso de insucesso do tratamento. Vale ressaltar que a Medicina não se inicia em um único lugar. No Oriente, existe registro do primeiro livro com práticas de medicina chinesa, notadamente a acupuntura (2698 a.C. a 2598 a.C.).
A medicina hipocrática, na Grécia, revolucionou o campo do conhecimento, introduzindo princípios teóricos importantes (admitia a possibilidade de múltiplas causas para as doenças). A observação do indivíduo seria a principal linha condutora para fazer diagnósticos e propor tratamentos. Com a separação da prática médica das crenças sobrenaturais dos tempos primitivos, a Medicina percorreu um longo e polêmico caminho até chegar à atual. Entre avanços e recuos, só foi institucionalizada a partir da Idade Média, após o surgimento da primeira escola de Medicina, em Salerno – calcula-se que no século IX -, e das primeiras universidades europeias. Até então, o ensino da arte médica era informal e se fazia de mestre para aluno, por gerações, como consta no juramento de Hipócrates. Contudo, a cirurgia ficou em segundo plano por séculos e era executada por cirurgiões-barbeiros, sem qualquer formação acadêmica. Apenas no século 19, com a descoberta da anestesia geral, dos microrganismos e o surgimento da antissepsia, a cirurgia foi reintegrada à Medicina.
No Brasil, os jesuítas e os fabricantes de medicamentos também tiveram papel importante no atendimento médico à população – indígenas, escravos e colonizadores. Os partos eram feitos pelas parteiras (sem nenhum preparo) e, por toda a parte, espalhavam-se os curandeiros. Apenas com vinda de D. João VI e a corte portuguesa (1808), a situação começou a se modificar com a criação de duas escolas médicas, primeiro na Bahia e, posteriormente, no Rio de Janeiro.
A Modernidade marca o nascimento da Medicina como disciplina mais próxima do que vemos nos dias atuais. A partir do Renascimento, os cientistas rompem com a ordem tradicional e começa o desenvolvimento do método científico.
A Medicina atual se utiliza bastante da tecnologia e de estudos científicos. Chegamos à era da Inteligência Artificial (IA), que tem crescido significativamente na área médica. As IAs são capazes de processar grandes quantidades de dados e identificar padrões baseados em algoritmos que, uma vez criados, podem se modificar com em um processo de aprendizagem (similar a um ser vivo). A cada erro, o algoritmo se modifica para que os erros sejam cada vez menores e os acertos cada vez maiores (modelo de redes neurais). Em teoria, quanto maior a quantidade de informações, mais precisa a IA se torna. Especialidades diagnósticas podem ser absorvidas em breve, por isso é importante garantir que as IAs sejam usadas de maneira ética e responsável. Mesmo porque é um campo ainda em desenvolvimento. O criador agora deverá ensinar a criatura.
Perceba que a História da Medicina é importante para entender a evolução do pensamento médico, métodos de pesquisa e formas de tratamento ao longo dos séculos. Com isso, o profissional não apenas contextualiza seus conhecimentos e práticas, como entende a origem e os princípios por trás das soluções que o médico utiliza no dia a dia.
Dr. Rafael A. Barbosa Delsin é 1º secretário da Diretoria da APM – Regional de São José do Rio Preto.

Filie-se à APM
smcriopreto
smcriopreto
17997898723
