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A tecnologia e a evolução na prática ortopédica: uma reflexão necessária

 Dr. Oreste Lemos Carrazzone

A ortopedia, como muitas outras especialidades médicas, tem experimentado uma transformação notável com o advento de no vas tecnologias e inovações que redefinem a forma como tratamos nossos pacientes. É essencial refletirmos sobre o impacto desses avanços na nossa prática clínica, na precisão dos diagnósticos e no sucesso dos tratamentos, possibilitando a melhoria da qualidade de vida dos pacientes.

Historicamente, a ortopedia teve suas raízes na necessidade de corrigir e estabilizar fraturas, muitas vezes com métodos invasivos e prolongados. No entanto, no século XXI, estamos vivenciando um salto tecnológico que está transformando a especialidade. O uso de técnicas minimamente invasivas, juntamente com tecnologias como robótica, realidade aumentada, impressão 3D e inteligência artificial (IA), já não é mais uma possibilidade futura, mas uma realidade que tem se mostrado cada vez mais eficaz.

As técnicas cirúrgicas minimamente invasivas, que já dominam muitos procedimentos ortopédicos, se destacam não apenas pela redução do tempo e da agressividade cirúrgica, mas, sobretudo pela aceleração do processo de recuperação dos pacientes. A artroscopia, por exemplo, se tornou um padrão consolidado e amplamente difun dido, utiliza microcâmeras de alta definição e instrumentais precisos para acesso às diversas articulações, e é hoje um dos principais métodos para tratar incontáveis lesões e doenças articulares com pequenas incisões na pele. Com técnicas minimamente invasivas também é possível o tratamento de fraturas e lesões traumáticas, facilitados pelo desenvolvimento altamente tecnológico de implantes projetados especialmente para essa finalidade.

Mais recentemente, o uso de robôs e da navegação para a rea lização de procedimentos ortopédicos, como artroplastias, tem de monstrado força e apresentando resultados consistentes. Seu uso traz o benefício da visualização das articulações em imagens tridi mensionais em tempo real, permite cortes ósseos milimétricos além de guiar o posicionamento dos implantes. Tratamentos deste tipo podem trazer grande impacto na saúde pública reduzindo tempo de internação, os índices de complicações e necessidade de reopera ções, além de promover retorno precoce dos pacientes às atividades laborais e físicas, todos esses fatores contribuindo para o menor cus to assistencial.

Outro avanço significativo na ortopedia é a utilização da impressão 3D, que já está sendo empregada na produção de próteses customi zadas, proporcionando um ajuste preciso à anatomia de cada pacien te. Para nós, ortopedistas, a capacidade de criar soluções sob medida é um passo importante para a evolução do tratamento. Além disso, a impressão 3D tem sido fundamental para a criação de modelos ana tômicos que ajudam na preparação para cirurgias complexas, pos sibilitando a visualização e o planejamento adequado, o que resulta em procedimentos mais seguros e com resultados mais satisfatórios.

E a bola da vez, a inteligência artificial (IA), também está cada vez mais presente na rotina de todos nós médicos, tem sido uma alia da indispensável na rotina desde pequenos consultórios até grandes conglomerados como operadoras de saúde e hospitais, otimizando sua produtividade. Em especial na área ortopédica, o uso da IA auxi lia na análise de imagens e exames para detecção precoce de lesões e fraturas assim como auxilia no planejamento de tratamentos. A capacidade de analisar grandes volumes de dados médicos de for ma rápida e precisa já vem demonstrando um impacto positivo nos resultados clínicos. Em um contexto em que a precisão e a rapidez são cruciais, a IA surge como uma ferramenta poderosa para apoiar a tomada de decisão e reduzir a margem de erro.

Não podemos ignorar, contudo, que a IA não substitui o olhar clínico do médico, mas potencializa nossa capacidade de fazer esco lhas mais informadas e eficientes. Ela é uma ferramenta a ser inte grada ao nosso processo de avaliação, mantendo a decisão final sob a supervisão do profissional. Esse é um ponto importante: enquanto a tecnologia acelera e aprimora o diagnóstico e o planejamento, a experiência clínica continua sendo o pilar fundamental da prática médica.

A chegada de tecnologias como a realidade aumentada e a rea lidade virtual tem transformado também o ensino e treinamento de novos profissionais. A possibilidade de realizar simulações realistas de cirurgias permite que nossos colegas mais jovens e até mesmo os veteranos da profissão, aperfeiçoem suas habilidades sem os riscos envolvidos em procedimentos com pacientes reais. Este tipo de trei namento é uma das grandes promessas para o futuro da educação médica, oferecendo não só segurança, mas também um ambiente ideal para o aprimoramento contínuo. Da mesma maneira, platafor mas online também contribuíram para aquisição do conhecimento na medicina, propiciaram acesso universalizado às informações mé dicas, sejam elas através da disponibilidade de estudos e revistas científicas, seja por meio de ensino de qualidade no estilo “on de mand”, método que já está enraizado na nossa realidade e cada vez mais presente no ensino médico.

Por último, vale salientar a propagação e acesso de inúmeras ferramentas digitais e dispositivos eletrônicos que possibilitaram o estreitamento na relação entre médicos e pacientes. Dispositivos como celulares e “smartwatches“, softwares de gestão de clínicas com acesso a teleconsultas a receitas digitais, aplicativos de moni toramento e orientação remota então entre os principais fatores que permitiram esse estreitamento.

Sem dúvida a ortopedia e a medicina estão vivenciando um mo mento de inovação sem precedentes. No entanto, é fundamental que as mudanças sejam implementadas de maneira crítica e responsá vel. A adoção dessas tecnologias exige de nós, médicos, não apenas o domínio das ferramentas, mas também a reflexão sobre como elas podem ser mais bem integradas à nossa prática clínica, sempre com o objetivo de promover os melhores resultados aos pacientes.

A tecnologia deve ser vista como uma aliada poderosa na evolu ção da medicina e da ortopedia, permitindo melhorar a gestão de recursos e de tempo, mas principalmente melhorar a experiência e os resultados oferecidos aos pacientes. E, mais do que nunca, nosso papel como médicos será humanizar todo esse emaranhado tecno lógico e de informação, permitindo levar com excelência, clareza e empatia, o que existe de melhor aos nossos pacientes.

 Dr. Oreste Lemos Carrazzone é médico ortopedista e 2º tesoureiro da Diretoria da APM Regional de Rio Preto.