Uma chama não perde nada ao acender outra chama
Descobertas recentes das neurociências têm revolucionado o conhecimento que temos do cérebro. Pesquisadores da Universidade de Zurique (Suíça) descobriram que pessoas altruístas apresentam um significativo incremento na massa cinzenta do cérebro, levando a mudanças na estrutura cerebral e das ativações neurais. A capacidade de se colocar no lugar do outro já havia sido associada com a maior atividade de uma região do cérebro chamada junção temporoparietal. Imagens de tomografia cerebral mostraram que quanto mais difícil é o ato altruístico, maior é a ativação da junção temporoparietal, algo não notado naqueles não altruístas. Além disso, essa maior ativação é suportada por uma junção temporoparietal fisicamente maior.
Altruísmo é um conceito muito mais amplo do que solidariedade. É o antônimo do egoísmo e do individualismo. A palavra foi criada em 1830 pelo fundador do positivismo, o filósofo francês Augusto Comte, para descrever pessoas que se preocupam e ajudam seus semelhantes sem esperar qualquer tipo de recompensa, não importando se isso vai trazer riscos ou sacrifícios pessoais. O famoso "desconfie da esmola que não custa nem dói".
Em "O gene egoísta" (1976), o biólogo evolucionista Richard Dawkins aponta a evolução como sendo centrada no gene, isto é, essa sequência de ácido nucleicos fará de tudo para se auto-replicar e ser transmitido de geração para geração. Para alguns, esta concepção pode ser aplicada à sociedade.
Podemos afirmar que religião não necessariamente torna uma pessoa moral ou altruísta. Não nos esqueçamos da parábola de Jesus descrita por Lucas. Nela, foi o bom samaritano e não o sacerdote que se aproximou e ajudou o homem espancado por ladrões.
Depois de décadas de determinismo biológico, - a crença de que somos o que somos devido unicamente à nossa biologia – a ciência tem começado a ceder espaço para percepções mais integrais do ser humano. O comportamento altruístico não é determinado apenas pelos fatores biológicos. Ser altruísta é uma característica pessoal, ou seja, pode surgir espontaneamente no ser humano ou pode ser aprendido e desenvolvido. O ser humano pode ser bom e generoso naturalmente, sem ser necessária a intervenção divina.
Mas, como se tornar uma pessoa altruísta? Resposta: só depende de você. Com algumas mudanças comportamentais e na forma de enfrentar a vida, tem-se um excelente ponto de partida.
Na sociedade atual (ainda que estejamos longe do ideal), alguns exemplos devem ser exaltados e servir de exemplo, como o projeto Médicos sem Fronteiras, uma organização humanitária internacional criada em 1971, na França, que leva cuidados de saúde a pessoas afetadas por graves crises humanitárias. Além da ajuda médica, chama a atenção do público para o sofrimento de seus pacientes. Não à toa, foi agraciado com o prêmio Nobel da Paz em 1999.
Vale o lembrete: quando somos bons para os outros, somos melhores ainda para nós mesmos.
Rafael Delsin é médico oftalmologista e 1º secretário da APM Rio Preto.