O médico anacrônico
Estamos entrando na terceira década do terceiro milênio da nova era e o mundo vem apresentando mudanças tão rápidas e drásticas que por vezes fica difícil acompanhar, em especial, após o início da pandemia. Em nossa área, vivenciamos uma era em que as relações interpessoais e o contato entre as pessoas têm se tornado cada vez mais escassos, sendo substituídos, na grande maioria das vezes, por tecnologias avançadas que nos permitem exercer a profissão de maneira remota, por vezes sendo substituídos por inteligências artificiais. Além disso, o acesso universal à informação via internet permite que uma pessoa comum possa pesquisar sobre saúde, doenças, tratamentos etc, mas será que a medicina, aquela velha prática científica popularizada no ocidente por Hipócrates, está com os seus dias contados? Será que um algoritmo complexo, porém rápido pode substituir o raciocínio clínico? Vale a reflexão.
“Uma consulta anacrônica
O médico anacrônico puxou com os dedos a pálpebra inferior da paciente para verificar se estava corada. Aproveitou para certificar-se de que não havia icterícia e que as mucosas brilhantes e úmidas confirmavam seu bom estado de hidratação. Com o auxílio de uma lanterna, verificou a simetria e os reflexos pupilares. Pediu para abrir a boca e mostrar a língua e deu uma olhada rápida no estado dos dentes e da mucosa oral.
Depois olhou o pescoço à procura de alguma alteração e apalpou a glândula tireóide. A paciente se preparou, vestindo um longo avental descartável. Por um instante, lembrou-se que o olfato e paladar eram os sentidos que os médicos menos costumam usar, mas pelo menos a paciente não tinha hálito cetótico nem hepático.
Reparou que o estado nutricional da paciente era bom, sem excesso de gordura nem flacidez muscular. A postura era normal, sem escoliose ou outros desvios da coluna. Marcha normal, extremidades normais.
As unhas bem tratadas, sem distrofias, mostravam aquele rosado normal por trás do esmalte translúcido, e as polpas digitais mostravam uma perfusão sanguínea adequada, com rápido retorno à cor normal após a breve apalpação. A pele não tinha manchas, piercings/tatuagens - raridade nos dias de hoje.
Inexistência de prótese mamária.
Apalpou os pulsos radiais, carotídeos, femorais e pediosos, comparou sua amplitude em ambos os lados do corpo para certificar-se não haver sinais de obstrução ou coarctação de aorta. Os MI sem varizes, ausência de edema nas pernas.
Contou a frequência cardíaca e avaliou o ritmo, percebendo não haver pausas ou extra-sístoles. Pegou seu estetoscópio e esfigmomanômetro, verificou a pressão arterial com a paciente deitada e depois de pé. Com a palma da mão, localizou o ictus cordis e o frêmito tóraco-vocal. Aqueceu a campânula do esteto e auscultou minuciosamente o coração e o trajeto das carótidas à procura de sopros, atritos ou abafamentos. Com os dedos indicador de uma mão e médio da outra, percutiu os espaços intercostais - som claro pulmonar. Auscultou o murmúrio vesicular. Pediu para a paciente inspirar e expirar pela boca, enquanto verificava se havia algum sopro tubário ou anfórico. Viu que o movimento da caixa torácica era normal, com boa expansibilidade. Pediu para que ela falasse "trinta e três", atento para uma eventual pectorilóquia ou voz caprina.
Apalpou as cadeias ganglionares cervicais, axilares e inguinais e não encontrou sinais de adenomegalias ou alteração.
Apalpou e percutiu o abdome, calculou o tamanho aproximado do fígado, suas bordas - se rombas ou não, o baço e os rins. Percutiu as lojas renais - sinal de Giordano negativo! Constatou não haver nenhuma massa abdominal anormal palpável.
Pediu para a paciente caminhar pela sala, observando a marcha, o equilíbrio e o movimento das articulações. Pediu para sentar-se na maca e, com o auxílio de um martelo de borracha, conferiu os reflexos osteotendinosos: bicipitais, tricipitais e patelares. Colocou-a de joelhos, na cadeira e avaliou os reflexos aquileus. Passou a ponta da tampa da caneta Bic na planta dos pés de rotina, mesmo sabendo que não iria se deparar com o sinal de Babinski. Testou seu equilíbrio com olhos abertos e depois fechados, a coordenação de movimentos. Testou a força muscular de preensão, a força de flexão e extensão, contra resistência, e demais ações.
Parecia tudo absolutamente normal, sem patologia detectável.
Foi aí que o médico anacrônico, ligando esses dados com as informações colhidas na anamnese, em que a paciente havia relatado detalhadamente as características das queixas.
Então o médico de conduta anacrônica, concluiu que a paciente não estava e nem apresentava qualquer doença grave e decidiu tranquilizá-la, dizendo não haver necessidade de realizar qualquer exame complementar, além daqueles normais que ela havia feito há duas semanas a pedido de outros médicos, todos normais.
Consequentemente sem necessidade de medicamentos, recomendou a prática de exercícios físicos, orientou uma dieta adequada, além de cuidados para garantir um sono tranquilo e controle do stress.
Pediu que retornasse caso surgissem sintomas novos.
A paciente saiu desapontada, pensando que médico especialista ela poderia procurar agora e que pudesse lhe pedir uma ressonância magnética do corpo inteiro ou algum outro exame mais moderno, para achar aquela doença que o médico anacrônico não foi capaz de diagnosticar.
Afinal, um médico que nem pede exames modernos e caros para pesquisar possível doença certamente deve estar ultrapassado.
(autor desconhecido).”
Henrique Nietmann é delegado da APM Regional de São José do Rio Preto.

Filie-se à APM
smcriopreto
smcriopreto
17997898723
