O inimigo pode estar dentro de casa
Quanto
custa a sua vida? Muito ou pouco? Muitos responderiam que não é possível
quantificar este valor. Outros, entretanto, omitiriam a resposta tendo a mais
plena convicção de que o valor é altíssimo para o bolso dele, não para o
“dono” da vida. Você estaria tranquilo em deixar sua vida nas mãos de uma
medicina mercantilista? É importante para todos nós, usuários e médicos
envolvidos na saúde suplementar, sabermos se a operadora contratada está mais
preocupada com a saúde ou com o dinheiro.
Infelizmente,
existem operadoras cujo principal objetivo é o lucro e, por isso, é
imprescindível saber escolher. Estas são reconhecidas no mercado pela verticalização,
movimento que teve início na década de 1970 e inicialmente foi freado no
Brasil pelo aparecimento do SUS, em 1988. Entretanto, nos últimos anos vem
ganhando cada vez mais espaço pela insatisfação de muitos com o sistema público
de saúde, esquecido inúmeras vezes pelas nossas autoridades.
Para
aumentar o lucro e ter um controle maior da qualidade assistencial, muitas
destas operadoras criam uma rede própria de hospitais, centros clínicos,
laboratórios e prontos-socorros.
Tais
empresas, aplicando políticas financeiras cada vez mais agressivas, tornaram-se
gigantes da saúde suplementar, com muitos milhões de beneficiários, inúmeros
hospitais, centenas de clínicas e unidades de diagnóstico distribuídas pelo
país. Este modelo de negócio é balizado justamente em processos assistenciais
verticalizados e podem acarretar inúmeros riscos para o profissional médico e,
por consequência, aos usuários.
Imperioso,
portanto, evitar que estas organizações empresariais do setor de saúde imprimam
aos seus colaboradores um treinamento sob subordinação, padronizado, excluindo
a autonomia do médico, vital para qualquer tratamento.
Necessário
combater os riscos iminentes do processo de verticalização, posto que, quando
não controlado, poderá colocar as vidas das pessoas em jogo, coagindo a
utilização de medicamentos e materiais de baixa qualidade, a implantação de
meios ortodoxos por algoritmos para a definição da autorização de procedimentos
e exames que levariam a uma interferência negativa no relacionamento
médico-paciente.
O
relacionamento entre as operadoras e a rede de prestadores deve ser saudável e
não pode ser baseado em assalariamento, levando a uma perda total da prática
médica como profissão autônoma. Também não pode visar redução tributária de
encargos trabalhistas, a pejotização, a criação de “falsas” cooperativas e a
criação de vínculos “temporários” de trabalho, que certamente desabonariam e
diminuiriam os direitos trabalhistas dos médicos, já próximos do aviltamento.
Desta
forma, importante que cada médico atente para a importância de sua profissão e
a influência que exerce na sociedade que espera e confia a própria vida em suas
mãos. Cabe a cada um avaliar suas parcerias, condições de trabalho e autonomia,
posto que o crescimento do setor de saúde suplementar é uma realidade
irreversível e caberá aos médicos imporem sua posição e seus conceitos
adquiridos na sua formação, embasados no Juramento de Hipócrates.
Ilustrando
o avanço das grandes operadoras nos últimos meses, o jornal Valor Econômico,
informa que, de janeiro a 10 de julho deste ano, operações de empresas de saúde
somaram R$ 6,3 bilhões em fusões e aquisições, em especial, de hospitais e
operadoras de planos de saúde. A Intermédica pagou R$ 1 bilhão pelo Centro
Clínico gaúcho; a Rede D’Or desembolsou R$ 382 milhões para ficar com 51% do
hospital mineiro Biocor; a rede mineira Mater Dei adquiriu o Hospital Porto
Dias, no Pará, numa transação de R$ 1,3 bilhão; a Dasa comprou, em Salvador, o
Hospital da Bahia por R$ 850 milhões e a rede de clínicas oncológicas Amo por
R$ 750 milhões; e a Hapvida comprou a operadora HB Saúde por R$ 450 milhões.
A
Associação Paulista de Medicina - Regional de São José do Rio Preto jamais
medirá esforços para proteger a classe médica e a população de planos que
denigrem a imagem e o serviço do médico. Não há serviço de qualidade à
população quando o ambiente de trabalho é hostil, com baixos honorários,
ameaças constantes de descredenciamento, dificuldade para internar pacientes,
glosas ou atraso no pagamento, interferência na conduta e restrição à
solicitação de exames. Intensificaremos cada vez mais a mobilização e os
protestos contra as condutas e as práticas de um mercado maquiavélico.
Por fim,
deixo a declaração do médico português João Lobo Antunes, “A nova
medicina”: “Não sei o que nos espera, mas sei o que me preocupa: é que a
medicina, empolgada pela ciência, seduzida pela tecnologia e atordoada pela
burocracia, apague a sua face humana e ignore a individualidade única de cada
vez mais modos de tratar, não se descobriu ainda a forma de aliviar o
sofrimento sem empatia ou compaixão”. Que nossa classe jamais perca o amor pela
medicina.
Dr.
Leandro Freitas Colturato é presidente da Associação Paulista de Medicina (APM)
- Regional de Rio Preto.

Filie-se à APM
smcriopreto
smcriopreto
17997898723
