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Transplante pulmonar pós-covid: uma breve história no tempo

Dr. Henrique Nietmann

Sei que todos já devem estar saturados de informações e artigos  sobre a pandemia e suas consequências nefastas, mas, como transplantador, sinto-me na obrigação de compartilhar alguns dados referentes aos transplantes e, mais especificamente, o transplante de órgãos torácicos no Brasil. Temos vivido um período extremamente difícil no cenário mundial e, principalmente, nacional, pois, num país de dimensões continentais como o nosso e com as dificuldades inerentes ao acesso à saúde de nossa população, o propósito  de tentar oferecer uma segunda chance àquelas pessoas que necessitam de um transplante para continuar vivendo com dignidade tornou-se tarefa quase que hercúlea.

Dados recentes mostram que a mortalidade em lista de espera por um órgão em nosso país teve aumento de cerca de 15% em comparação ao período pré-pandemia, chegando a 35% do total de pacientes inscritos.  Mais especificamente em relação aos pulmões, houve um declínio de mais de 40% do número de transplantes realizados no país. Somado a este problema, as equipes têm enfrentado uma nova realidade: os pacientes que apresentam sequelas pulmonares irreversíveis e que necessitam de um transplante pulmonar. Não existe até o momento um dado concreto que nos permita estimar com precisão a porcentagem de pacientes que evoluíram ou evoluirão para um quadro de pneumopatia terminal no Brasil, mas dados internacionais sugerem que este número corresponda a menos de 1% dos infectados.

No primeiro semestre de 2020, alguns países da Europa, a China e os Estados Unidos relataram os primeiros casos de pacientes submetidos a transplante pulmonar devido a sequelas pós-covid. No Brasil, esta realidade começou a tomar forma quando, ao final deste mesmo ano, as equipes transplantadoras do Estado de São Paulo (Incor, Einstein e Funfarme) começaram a buscar alternativas na Câmara Técnica Estadual de Transplantes para a inclusão e priorização em lista destes pacientes. Já no ano de 2021, ao percebermos o aumento no número de solicitações de priorização de pacientes, identificou-se a necessidade de se criar uma lista de critérios de inclusão em fila que permitisse a utilização racional dos órgãos, considerando as chances de sobrevida pós-transplante destes pacientes, dada a escassez deles.  

Portanto, baseados na literatura mundial e na realidade brasileira, estabeleceram-se critérios para a inclusão e priorização e lista que seguem abaixo:

1)      - PCR NEGATIVO para covid em amostras do trato respiratório inferior com 24-48h de intervalo;

2)      - idade entre 18 e 50anos;

3)      - irreversibilidade do quadro pulmonar, com 6 semanas do início dos sintomas e com dependência de suporte ventilatório 24h/dia ou ECMO por pelo menos 4 semanas;

4)      - IMC entre 17 e 27 prévio a internação;

5)      - estabilidade hemodinâmica;

6)      - ausência de infecções bacterianas ou fúngicas não responsivas a tratamento antimicrobiano disponível;

7)      - paciente capaz de ser acordado e compreender que será avaliado para transplante e concordar em ser transplantado;

8)      - avaliação e aprovação do serviço social; ausência de história de tabagismo ativo até o episódio de covid-19;

9)      - será tolerada neuropatia do doente crítico desde que ele apresente força muscular grau 3 e seja possível manter a reabilitação durante a espera por um órgão;

10 - ecocardiograma com fração de ejeção maior que 50% e ausência de vegetações ou anormalidades anatômicas e/ou funcionais;

11 - cateterismo esquerdo sem sinais de doença coronariana em maiores de 50 anos e angiotomografia de coronárias em pacientes entre 40-50 anos;

12 - ausência de outras disfunções orgânicas agudas, exceto insuficiência renal;

13 - autonomia da equipe transplantadora em contraindicar de acordo com o conjunto de informações clínicas avaliadas pela equipe multiprofissional, independente das demais equipes que acompanham o paciente.

Desde a criação destes critérios em abril deste ano até o presente momento, foram realizados cinco transplantes com este tipo de paciente, sendo que, atualmente, quatro encontram-se vivos e em recuperação, mostrando a seriedade, competência, profissionalismo e dedicação dos profissionais envolvidos. Entretanto, vale salientar que todos os pacientes transplantados foram mantidos vivos graças à utilização da ECMO, tecnologia inovadora e altamente eficiente, mas que, infelizmente, não está disponível para pacientes do SUS de forma oficial, pois sua inclusão no rol dos procedimentos no sistema nacional foi vetada em parecer recente de uma Conitec criada para este fim.

Em uma análise mais profunda, esta questão nos remete a um dilema ético que talvez nos faça refletir: será que estamos realmente garantindo a todos os brasileiros o princípio da EQUIDADE, base fundamental do SUS, se apenas aqueles poucos pacientes que possuem condições de arcar com as despesas de uma tecnologia avançada, porém dispendiosa, terão a chance de serem incluídos e priorizados em lista, em detrimento de tantos outros que não têm a mesma “sorte”?

Assim como o tempo nos ajudou a entender melhor os efeitos desta infecção viral e nos ensinou a conviver com essa nova realidade, ele também nos ajudará a encontrar uma saída para estas e muitas outras questões que nos afligem nesse novo cotidiano. Cabe a nós, portanto, utilizá-lo com sabedoria, pois hoje, mais do que nunca, NÃO HÁ TEMPO A PERDER!

Dr. Henrique Nietmann é cirurgião torácico do Hospital de Base de Rio Preto