Violência contra os médicos perdura
Dra. Paula Fialho Saraiva Salgado
A agressão aos profissionais da saúde,
embora não seja nenhuma novidade, segue sendo pouco discutida e, em geral,
subnotificada, havendo uma tendência ao aumento de casos em períodos de estresse
social, a exemplo da corrente pandemia de covid-19.
Tal ocorre porque a população não se
sente acolhida nem devidamente assistida pelo poder público e acaba por
descontar seu desagrado no profissional da linha de frente. A outra causa é o constante desgaste da
estrutura de atendimento público, que leva à falta de respeito para com os profissionais
da saúde.
Casos como o ocorrido no final de 2020
em Tanabi, onde uma médica foi agredida durante plantão por paciente e
acompanhante, têm sido cada vez mais frequentes. A profissional, após se negar
a dar conduta contrária à literatura médica, sofreu lesões corporais e ainda
danos patrimoniais, pois as agressoras vilipendiaram seus pertences pessoais.
Na ocasião, a unidade de atendimento não contava com segurança e as agressões somente
foram interrompidas devido à intervenção de outros pacientes e funcionários do
serviço.
Outro caso recente é o do médico ultrajado,
física e verbalmente, durante plantão, por homem que chegou alterado na UBS,
alegando dores na região lombar e pedras nos rins. Ante pedido de espera pelo corpo técnico para
a abertura de ficha de atendimento, o paciente ficou ainda mais perturbado e começou
a xingou todos os presentes. Quando o plantonista entrou no rol comum (fora da
sala de atendimento), o homem, deliberadamente, na frente dos outros pacientes,
começou a xingá-lo e ameaçá-lo caso não fosse imediatamente atendido. Embora
tenha sido tratado, como orientado, em circunstância de intimidação, em razão
da suposta demora da supressão da dor, o paciente atacou o médico e causou
danos na estrutura do posto de saúde. Em
decorrência, além da ação criminal, o médico acionou judicialmente o agressor, requerendo
indenização por danos morais e materiais.
Em ambos os episódios, chegou-se às
vias de fato, o que é característica dos casos que chegam a ser notificados,
havendo indícios de subnotificação das ocorrências, em especial, nas hipóteses
em que as agressões se mantêm no âmbito verbal.
Em recente pesquisa junto aos médicos
de São José do Rio Preto, em que um dos temas abordados foi a violência contra
o médico, dos 365 profissionais participantes, quando inqueridos sobre a existência
de algum tipo de prevenção e segurança para evitar a violência contra os profissionais
da saúde nos serviços públicos que trabalham, 28% informaram que não atuam em Serviço
Público, 54% que não havia política de prevenção ou segurança e, somente 28%
afirmaram a existência das mesmas.
Em recente pesquisa realizada pela
Associação Paulista de Medicina – Regional de São José do Rio Preto da qual
responderam 365 médicos da cidade, dos 263 profissionais que informaram
trabalhar no serviço público, 54% (142 médicos) afirmaram que não havia
política de prevenção ou segurança no local e somente 28% (74 profissionais)
afirmaram a existência das mesmas.
Questionados sobre essas políticas no
sistema privado, 18% dos 365 médicos responderam que sim, 64% que não e 4,2 %
afirmaram não trabalhar em serviço privado.
Perguntados quanto a já terem sofrido
algum tipo de violência, seja física, psicológica ou assédio sexual, no
exercício da profissão, 44% afirmaram que sim e 55% afirmaram que não.
Ao serem indagados se teriam assistido
a alguma forma de violência contra profissionais da Saúde no exercício da atividade,
64% disseram que sim e 36% negaram.
Por fim, interpelados sobre sua opinião
pessoal quanto o aumento ou não da violência nos últimos anos, 89% confirmam
ter esta percepção, enquanto 10,73% negaram.
Em razão desse contínuo incremento
percebido, tramita na Câmara Federal, desde 2016, o projeto de lei 6749 que
altera o Código Penal, Decreto-Lei 2.848, de setembro de 1940, o qual propõe a
tipificação de forma mais gravosa dos crimes contra médicos e profissionais da
saúde, aumentando em um terço as penalidades para crimes de lesão corporal,
contra a honra, ameaça e desacato aos médicos e demais profissionais da saúde
no exercício da profissão.
No entanto, infelizmente, o profissional
da saúde não é assediado somente pelo paciente, mas também por seus gestores,
superiores, colegas de trabalho e outros profissionais da saúde.
O que fica claro é a necessidade premente
do resgate desta profissão milenar, que cuida de vidas, por vezes, como visto
nos últimos 18 meses, expondo a riscos, a si e seus familiares, para oferecer cuidado
aos pacientes.
Dra. Paula Fialho Saraiva Salgado é
diretora de Defesa de Classe da APM - Regional de Rio Preto

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