O drama da pesquisa científica no Brasil
Dra. Lilia Nigro Maia
A redução de investimentos em pesquisa científica nas
universidades públicas para 2021 terá enorme impacto em todas as frentes,
inviabilizando o desenvolvimento de pesquisa, cursos, bolsas e novas
tecnologias. Teremos um cenário de quase paralisação do setor de Ciência,
Tecnologia e Inovação e não será possível abrir novos cursos nem novas áreas de
pesquisa. Pela previsão orçamentária do
Governo Federal para 2021, aprovada este mês no Congresso, somente o Ministério
da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) perderá 34% de sua verba anual.
Os cortes em sequência, que iniciaram em 2016, afetam a
tríade composta pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico (CNPq) e o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico (FNDCT), além da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
Superior (Capes), que é mantida pelo Ministério da Educação.
A situação do CNPq é a mais preocupante. O orçamento de
fomento da agência, destinado ao financiamento de projetos de pesquisa, é de
apenas R$ 22,5 milhões, dos quais R$ 12,1 milhões (53%) estão condicionados à
liberação de créditos suplementares. Ou seja: garantidos mesmo no orçamento são
apenas R$ 10,4 milhões — quantia irrisória para o financiamento de pesquisas em
todo o Brasil. A pesquisa brasileira ficará à mercê da liberação de emendas
parlamentares
Não bastasse o corte orçamentário, o governo também reduziu
em quase 70% a cota do CNPq para importação de insumos de pesquisa livres de
impostos. Essa cota funciona como um limite de cartão de crédito: é o valor
máximo de produtos que o CNPq pode isentar de impostos para importação num
determinado ano. Em 2020, esse valor foi de US$ 300 milhões; e agora, em 2021,
será de apenas US$ 93 milhões.
No Estado de São Paulo, houve corte de 30% do orçamento da
Fapesp, fundação que financia bolsas e investe em pesquisas científicas no
Estado, incluindo a maior parte das atividades de produção de vacinas no
Instituto Butantan.
Assim como o corte orçamentário, a redução da cota de
importação tem um efeito cascata dramático sobre todo o sistema de ciência e
tecnologia nacional, já que todas as isenções de impostos precisam ser
aprovadas pelo CNPq, mesmo que as pesquisas não sejam financiadas por ele —
incluindo os insumos necessários para a produção de vacinas no Instituto
Butantan e na Fiocruz.
* Dra. Lilia Nigro Maia é cardiologista e diretora do Centro
Integrado de Pesquisa do Hospital de Base de Rio Preto.

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