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Obituário de um estatístico

Dr. Rodrigo José Ramalho

Se você já realizou um trabalho científico, vai se lembrar sobre quem eu escrevo: David Cox. Ele faleceu recentemente, em 18 de janeiro, aos 97 anos. Se ainda não lhe veio à memória de quem eu estou falando, saiba que suas descobertas se mostraram indispensáveis para obter resultados confiáveis em um vasto espectro de disciplinas, da medicina à astrofísica, genômica e até física de partículas.

Cox foi um gigante no campo da estatística, mas foi reconhecido especificamente por seu artigo de 1972, no qual desenvolveu o modelo de riscos proporcionais que hoje leva seu nome. O Modelo de Cox é amplamente utilizado na análise de dados de sobrevida e permite aos pesquisadores identificar mais facilmente os riscos de fatores específicos para mortalidade ou outros desfechos de sobrevida, entre grupos de pacientes com características díspares. Desde a avaliação de risco de doença e avaliação de tratamento assim como, por exemplo, abandono escolar e sistemas de vigilância da AIDS, o modelo tem sido aplicado essencialmente em todos os campos da ciência. A aplicação bem-sucedida levou a avanços que mudaram vidas, com efeitos sociais de longo prazo, como por exemplo:

- demonstrou que uma grande redução nas mortes cardíacas relacionadas ao cigarro pode ser observada logo após um ano da cessação do tabagismo, não 10 ou mais anos como se pensava anteriormente;

- mostrou os efeitos de mortalidade da poluição do ar por partículas, descoberta que mudou tanto as práticas industriais quanto a regulamentação da qualidade do ar em todo o mundo;

- identificou fatores de risco de doença arterial coronariana e analisou tratamentos para câncer de pulmão, fibrose cística, obesidade, apneia do sono e choque séptico.

O domínio estatístico da análise de sobrevida envolve o intervalo de tempo entre a ocorrência de um evento específico, como óbito do paciente, por exemplo. O modelo pode ser usado em ensaios clínicos para investigar informações baseadas em tempo sobre coortes de pacientes, como sua resposta à exposição a certas substâncias químicas. A taxa na qual a falha ocorre ou um paciente morre é chamada de função de risco (hazard function). No modelo de riscos proporcionais de Cox, ele propôs uma função de risco que é dividida em uma parte dependente do tempo e uma parte independente do tempo. Distinguir a entrada dependente do tempo da entrada independente do tempo simplifica muito a análise de dados médicos, e os modelos de Cox são amplamente utilizados em pesquisas médicas até hoje.

Ainda, antes da consagração em 1972, Cox desenvolveu a regressão logística em 1958, sendo seu primeiro artigo de destaque. Ela é empregada quando a variável a ser prevista é categórica (ou seja, pode assumir um número limitado de valores, por exemplo, gênero, raça, binária (um caso especial de categórica com apenas dois valores - por exemplo, sucesso/fracasso, doença/sem doença)) ou ordinal, onde as categorias podem ser classificadas (por exemplo, a intensidade da dor pode estar ausente, leve, moderada, grave, insuportável).

Ele fora nomeado cavaleiro da ordem britânica em 1985, adotando o nome de Sir David Roxbee Cox, tendo se aposentado em 1994, mas mantinha certa atividade na Universidade de Oxford, onde chegou a ser reitor do Nuffield College. Em 2016, David Cox foi nomeado o primeiro ganhador do Prêmio Internacional de Estatística, o prêmio Nobel dessa área. Ele é concedido a cada dois anos a um indivíduo por grandes realizações para o avanço da ciência, tecnologia e bem-estar humano. Sua marca na pesquisa é tão grande que seu artigo de 1972 é um dos três mais citados em estatística, aparecendo em 16º lugar na lista dos 100 artigos mais citados de todos os tempos da Nature.

Cox se definia como um cientista que se especializou no uso da estatística, que é definida como a ciência de aprender a partir de dados. Base da investigação científica, a estatística é um componente crítico no desenvolvimento de políticas públicas e tem desempenhado papéis fundamentais em vastas áreas do desenvolvimento humano e exploração científica. Sem a análise dos dados, de qualquer dado, é impossível conseguirmos melhorias onde quer que estejamos. O trabalho pioneiro de Cox em áreas tão fundamentais permanece significativo até hoje e seu legado continuará a brilhar no futuro por meio de suas contribuições atemporais para o campo da estatística e da matemática.

Dr. Rodrigo José Ramalho é médico nefrologista e vice-presidente da Associação Paulista de Medicina – Regional de Rio Preto.