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A sombra da pandemia

Dr. Leandro Freitas Colturato

O isolamento social, o medo de contágio, as medidas de contingenciamento nos hospitais e o esgotamento de recursos humanos e de insumos no sistema de saúde público e privado, ocasionados pela pandemia desde março de 2020, levaram à falta de assistência e ao agravamento no quadro de saúde de pacientes com doenças crônicas prevalentes no perfil epidemiológico de nossa população.

As restrições de acesso aos hospitais, o controle de leitos para o tratamento da covid-19 e o medo de pacientes em procurar ajuda médica provocaram queda de 27 milhões de exames, cirurgias e outros procedimentos não programados ou que não são considerados de urgência e emergência no SUS.

Comparando o volume de atendimentos médicos no SUS, realizados entre março e dezembro de 2020 com o mesmo período de 2019, houve redução de pelo menos 16 milhões de exames diagnósticos, 8 milhões de procedimentos clínicos, 1,2 milhão de pequenas cirurgias e 210 mil transplantes de órgãos, tecidos e células.

Reduções drásticas em procedimentos de saúde são apontadas diariamente. Queda de 2,8 milhões de cirurgias eletivas; 1,6 milhão de exames de glaucoma; 24,8% dos transplantes, com destaque para 62% de rim (com doador vivo), 52% de córnea e 21% de coração; 32,8% dos exames para acompanhamento de pacientes HIV positivo; e o mais espantoso, até 90% dos exames para diagnosticar diferentes tipos de tumores.

Em São José do Rio Preto, nos anos de 2020 e 2021, dados da Secretaria de Saúde mostram que, em média, 9,5 mil consultas de especialidades por mês deixaram de ser realizadas causando um prejuízo enorme à população.

Muitos pacientes deixaram de tomar regularmente os medicamentos e de fazer exames de controle, aumentando as chances de progressão da doença. Houve piora do condicionamento físico e perda da massa muscular desses pacientes, com consequente efeito negativo no sistema osteomuscular e cardiovascular.

À medida que a população “se encaixa” nos novos padrões de normalidade do dia a dia, o aumento da busca pelo atendimento ambulatorial e emergencial por casos não covid-19 é inevitável. Formas mais graves das diversas enfermidades crônico-degenerativas, como neoplasias e condições cardiovasculares, que não tiveram adequado seguimento ou oportunidade de tratamento durante a pandemia, tornam-se mais frequentes.

Não há na literatura, de forma concreta, o “preço” que pagaremos pela situação sanitária atual provocada pelo retardamento dos diagnósticos e tratamentos das doenças crônicas. O Sistema Único de Saúde sofrerá muito ao longo dos próximos meses e anos. O impacto causado às doenças “não covid” é imensurável e restituir a saúde do brasileiro ao período anterior à pandemia será uma tarefa árdua. Os cofres públicos e a população menos assistida serão os mais atingidos.

A Associação Paulista de Medicina – Regional de São José do Rio Preto enfatiza que a pandemia está aí. Medidas de prevenção exaustivamente disseminadas devem ser mantidas. O isolamento é importante, mas não pode ser aplicado à saúde. Com a pandemia, os exames ganharam dois anos de intervalo e é mandatório o retorno à normalidade antes que ocorra mais uma tragédia social.

 

Dr. Leandro Freitas Colturato é presidente da Associação Paulista de Medicina – Regional de São José do Rio Preto