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Vacinas contra covid-19 e segurança cardiovascular

Dr. Eduardo Palmegiani

As vacinas contra a SARS-CoV-2 são consideradas a abordagem mais efetiva para controlar a pandemia pelo vírus.  Apesar do tempo curto para desenvolvê-las, todas as fases clínicas (fases I a III) exigidas para desenvolvimento de uma vacina foram cumpridas, com todo o rigor científico.  

Como em outras vacinas, eventos adversos estão sendo observados e rigorosamente monitorados nesta fase pós-comercialização (fase IV), com intuito de otimizar e diminuir o risco da imunização contra COVID-19 na população. Alguns destes eventos, talvez os mais preocupantes e discutidos, estão relacionados ao aparelho circulatório: são eles a trombocitopenia trombótica induzida pela vacina (TTIV) e miocardite. Recentemente, a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) publicou um posicionamento sobre a segurança cardiovascular das vacinas contra a COVID-19(1), fundamentado nos dados científicos mais robustos sobre o tema até o momento. Neste artigo, enfatizaremos os principais pontos deste posicionamento.

TTIV

Com real incidência ainda desconhecida, evidências apontam que a TTIV é um evento adverso raro (3,8/milhão de doses) relacionado às vacinas com vetores de adenovírus (Astra Zeneca e Jansen/Johson & Johson). Trombose é apresentação clínica principal, sendo o acometimento da veia cerebral uma das formas mais comuns e graves.

Nos pacientes com COVID-19, a incidência de trombose chega a 8% em hospitalizados, 23% em pacientes na UTI e 207 casos de trombose de veia cerebral/milhão (em pacientes hospitalizados), números muito superiores aos induzidos pela vacina (0,9-3,8/milhão de doses)(1). Em indivíduos que receberam a primeira dose sem complicações, não há evidências que a segunda dose ou reforço aumentem o risco de trombose.

MIOCARDITE

Evento adverso relacionado principalmente às vacinas de RNAm (Pfizer e Moderna), tem caráter autolimitado, prognóstico favorável com resolução de sintomas e normalização dos exames (laboratoriais, eletrocardiograma e ecocardiograma). Possui incidência variável, sendo mais comum após segunda dose e maior entre adolescentes e jovens do sexo masculino.

Na população geral, a incidência de miocardite é de 10 casos/milhão de vacinados, número bem inferior aos 30 casos/milhão de indivíduos diagnosticados com COVID-19(1), com exceção da população jovem do sexo masculino, em que a incidência de miocardite entre vacinados e contaminados foi semelhante e até um pouco superior nos indivíduos vacinados com o imunizante da Moderna (não disponível no Brasil). Ainda assim, quando comparadas as taxas de mortalidade e hospitalização nesta população de maior risco para miocardite pós-imunização, o benefício geral da vacina supera o risco de tal evento adverso. Para cada milhão de homens de 12-29 anos imunizados com uma segunda dose de vacina de RNAm, são evitados 11000 casos de COVID-19, 560 hospitalizações, 138 internações em UTI e 6 mortes, em comparação com 39 a 47 casos de miocardite induzidos pela vacina.

Desta maneira, os benefícios gerais da vacina superam os riscos de miocardite (geralmente leve e autolimitada) e trombose, mesmo no contexto atual da escalada no número de infecções pela variante Ômicron, em que estudos recentes demonstraram alta eficácia das vacinas de RNAm na prevenção de casos graves e morte por COVID-19, ainda mais quando reforçada por uma terceira dose. Em crianças, além da redução da transmissão de casos e benefícios para a saúde, estas são favorecidas por menor interrupção no período escolar.


Referência bibliográfica

1-) Moreira HG, Oliveira Júnior MT, Valdigem BP, Martins CN, Polanczyk CA. Posicionamento sobre Segurança Cardiovascular das Vacinas contra COVID-19 - 2022. Arq Bras Cardiol. 2022; [online].ahead print, PP.0-0

 

Dr. Eduardo Palmegiani é cardiologista e diretor científico da APM – Regional de São José do Rio Preto.